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Simone e o protagonismo preto na cultura pop
Quadrinho de ação no melhor estilo mangá à brasileira traz como protagonista uma caçadora de monstros do Capão Redondo que volta à ativa pra resgatar a filha
Por THIAGO CARDIM
Uma mulher que caça clássicos seres sobrenaturais orientais como os youkais (em seu cardápio mais variado de formas e tamanhos) e os oni (parecidos com os ogros da fantasia tolkieniana, tipicamente grandes, fortes e cruéis). Agora junte a este grupo de alvos também certos personagens do folclore brasileiro. Poisé. Traga a ambientação para o Brasil, com passagens por lugares tipicamente paulistanos como a Rua Augusta, o bairro da Liberdade e o Capão Redondo. E faça da protagonista uma mulher preta, que luta também com a ajuda dos orixás.
Prontinho, você tem o gibi nacional “Simone”, recentemente financiado coletivamente via Catarse.
A obra é escrita e desenhada por Douglas Docelino, ilustrador, animador e quadrinista de Carapicuíba, município da região metropolitana de São Paulo, que já tinha publicado tanto na coletânea de quadrinhos independentes “Tudo Já Foi Dito” quanto na HQ “Canção do Mar Sombrio”, com roteiro de Fabricio Saade Pagani.
“A ideia surgiu mais pra 2016”, explica o autor, em entrevista exclusiva pro Gibizilla. “Eu queria montar uma HQ e não sabia como. Sempre sonhei em trabalhar com quadrinhos e sempre tentava fazer cursos de desenho”, conta. Então, indo de ônibus de Carapicuíba até o Valo Velho (Capão Redondo) pra ver sua namorada (que depois se tornou esposa), passando pela estrada de Itapecerica, viajando naquelas 3 horas, ele pensou: “E se fizesse uma heroína daqui do Capão?”.
Douglas começou a rabiscar justamente pra procurar trabalho como quadrinista e, aos poucos, Simone foi nascendo. “A inspiração dela, nos movimentos, veio de um lutador [de MMA] chamado Chris Barnett, o Best Boy, que apesar de peso pesado conseguia desferir chutes giratórios fantásticos e poderosos. Na capoeira, encontrei o Mestre Muralha – então decidi que os movimentos seriam de capoeira”, explica ele.
O nome da personagem vem da cantora Nina Simone, mas ela ficou ali como essa ideia só rascunhada, no forno criativo. “Fiz o curso de roteiro do Felipe Castilho na Quanta Academia de Artes, e as inspirações vieram tanto de filmes como Aventureiros do Bairro Proibido, Busca Implacável, Kill Bill, Afro Samurai, o Blade da Marvel, Blade A Lâmina do Imortal e Yu Yu Hakusho”, revela. Até então, só rascunhando, e ainda tentando decidir o que fazer com aquilo. Daí veio a pandemia e com ela aquele sentimento: e aí? “Você não vai tentar? Não sabe nem o dia de amanhã… Assim nasceu Simone 01”.
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Poisé, número 1 mesmo. A gente explica.
O primeiro capítulo de “Simone” saiu na Perifacon de 2022. Já o segundo rolou mais pro final daquele mesmo ano, na CCXP. E a terceira edição viria no ano seguinte, 2023, também na Perifacon. Este volume financiado via Catarse é, portanto, uma compilação das três edições numa só. “Essa parte é bem interessante, porque os que compravam a número um tinham interesse nos outros – ou. quando estava saindo o número 2, falavam que só iam comprar tudo quando saísse o final da história”.
Mas a produção saía do bolso do Douglas, tudo completamente independente. Ele sempre sentia que precisava reimprimir os três volumes (“nunca gostei de comprar uma saga e faltar algum número, então tentava sempre todos”) e, como a tiragem era pouca, o preço do quadrinho naturalmente também subia. Mas não era o que ele queria, em busca de uma maior popularização do gibi. “Então, pra facilitar pro leitor ter toda história de uma vez como nos mangás e para tentar baratear a produção, decidi reunir tudo em um só trabalho”.
Sobre mangá e cultura preta
Mas, afinal, o Douglas encontrou o equilíbrio entre a linguagem dos mangás e a cultura preta periférica? Ele diz que ambas se conectam muito bem, por mais que muita gente não enxergue isso de imediato. “Os protagonistas geralmente são excluídos socialmente, com problemas que fazem o leitor periférico se identificar”, opina.
“As produções asiáticas, desde o cinema com Bruce Lee e os dilemas chineses com preconceitos, até desenhos japoneses como Naruto ou Yu Yu Hakusho, sempre se comunicaram com a periferia. A cultura preta sempre fez essa mescla desde Bruce Leroy (protagonista do clássico O Último Dragão, de 1985) ao próprio Afro Samurai”.
Ele reforça, no entanto, que a diferença talvez esteja no protagonismo negro – já que vemos poucos ou quase nenhum personagem preto em obras do tipo.
Agora, cá entre nós, fica um questionamento pro quadrinista: o cara mais “conservador”, que gosta de gibis de heróis ou mangás tradicionais, vai ter algum tipo de reação adversa a um gibi estrelado por uma mulher preta? Ou de imediato, isso já fica pra trás?
“Olha, sinceramente não sei”, diz ele. “Quando faço um quadrinho, eu tento pensar: o que o Douglas criança/adolescente gostaria de ler? Quando eu assistia algo quando criança, a ausência de heróis negros me fazia gostar de tokusatsus como o Change Grifon dos Changeman, o Jaspion com seu black power na primeira temporada, Black Kamen Rider – ou da Tempestade dos X-Men, muitas vezes comandando a tropa melhor que o Ciclope”.
Então, ele SEMPRE quis ver mais heróis negros protagonizando uma obra. “Acho que é mais sobre isso. Ao ir aos eventos, eu percebo que os leitores gostam justamente por ser uma mulher negra protagonista. Em eventos como a Perifacon, muitos veem a Simone em suas mães, em alguém no metrô ou nelas próprias. Quantas Simones neste Brasil gostariam de se ver em uma história?”.
Pois então. Agora elas podem. Pra ficar ligado nos lugares em que você pode adquirir “Simone”, siga lá o Douglas no Instagram.
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