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Um Conto de Padilha: de princesa a pombagira

Financiado coletivamente e lançado na CCXP 2024, livro da iniciativa Pontos Ilustrados conta a jornada de uma personagem icônica da nossa história

Por THIAGO CARDIM

Preciso dizer, antes de mais nada, que tenho gostado bastante de ENFIM ver a nossa cultura pop, tipicamente BR, abraçando sem preconceitos a riquíssima história das religiões afro-brasileiras.

Seja na forma dos gibis kirbynianos de Hugo Canuto e sua maravilhosa coleção Contos dos Orixás ou da agora longeva e premiada série “Orixás” de Alex Mir, com arte de um coletivo de artistas brasileiros como Al Stefano, Alex Genaro, Alex Rodrigues, Caio Majado, Germana Viana, Jefferson Costa, Laudo Ferreira, Marcel Bartholo, Omar Vinole e Will, o fato é que esta riquíssima cosmogonia enfim está ganhando espaço.

Falando sobre lendas, mitologias, mandingas e causos, o projeto Pontos Ilustrados também segue um pouco deste caminho. Depois de duas HQs complementares, “Zé” (roteiro de Alessio Esteves e arte de Bruno Brunelli) e “Pelintra” (roteiro e arte de Brunelli), que contam a história de você já imagina bem quem, agora eles lançam luz sobre outra personagem bastante popular no imaginário brasileiro: Maria Padilha.

Assim nascia “Um Conto de Padilha”.

“Tentaram me matar com copo de veneno / Se quiser matar, me mata / Que beber, eu bebo mesmo”

“A Maria Padilha é uma personagem que aparece há muito tempo na nossa história, desde a época colonial, e aí surgiu a vontade de contar como isso aconteceu – ou como pode ter acontecido”, explica Bruno, em entrevista exclusiva pro Gibizilla.

Também conhecida por dama da madrugada, rainha da encruzilhada ou senhora da magia, Maria Padilha é uma espécie de falange ou agrupamento das chamadas pombagiras – divindade dos caminhos, encruzilhadas, bifurcações e comunicação, dotada de aspectos femininos.

Na quimbanda, as pombagiras ocupam uma posição central, especialmente no que diz respeito aos aspectos de sexualidade, amor, relações pessoais e emoções.

Já Maria Padilha está ligada a Maria Padilla, amante do rei espanhol Dom Pedro I de Castela (1334-1369) e que teve com ele quatro filhos. De acordo com as pesquisas do especialista Reginaldo Prandi, ouvido pela Carta Capital, “Maria Padilha, talvez a mais popular pombagira, é considerada espírito de uma mulher muito bonita, branca, sedutora, e que em vida teria sido prostituta grã-fina ou influente cortesã”.

Prandi ainda completa: “Pombagiras são espíritos de mulheres, cada uma com sua biografia mítica: histórias de sexo, dor, desventura, infidelidade, transgressão social, crime”, diz. Já o próprio autor do artigo, Pai Rodney, afirma que a pombagira é uma mulher livre. “Livre de convenções e padrões sociais, livre da moral e da ética castradoras, livre do domínio dos homens, livre pra fazer o que bem quiser”. E rapidamente as pombagiras se tornaram parte do nosso imaginário.

Basta lembrar por exemplo que, recentemente, o ponto de umbanda “Copo de Veneno”, dedicado à Maria Padilha, viralizou especialmente no TikTok por conta da reinterpretação tecnomelody do paraense DJ Meury – escute aqui.

“Fazia alguns anos que pensávamos nisso, e aí com a oportunidade de ter um lançamento na CCXP de 2024, aproveitamos o momento para fazer a ideia ganhar vida”, explica Bruno.

O livro surgiu pela pesquisa acadêmica de Inês Barreto, autora do texto, que é mestra em história e pesquisa magia no Brasil. Já a ilustração e a diagramação são do Bruno, ao longo das 36 páginas, em formato A5, com capa colorida e miolo preto e branco.

A ideia é contar como uma princesa espanhola se tornou a pombagira mais famosa do Brasil, viajando pelo mar e encontrando os saberes e macumbas da nossa terra. O conto é apresentado através da visão de Dona Antônia, uma curandeira que aprendeu as magias de Maria Padilha e vai ensiná-las para a sua neta, Domingas. Juntas, as duas passeiam pela história da princesa espanhola e conhecem os seus segredos.

“Esse olhar que a gente teve foi para mostrar que alguns dos espíritos ancestrais e entidades que conhecemos tão bem tem uma história muito longa aqui na nossa terra”, explica Bruno. “Muitos deles sempre estiveram por aqui e foram sendo cultuados de diferentes formas, muito antes da umbanda, da quimbanda e das outras religiosidades que conhecemos hoje”.

Desta forma, eles quiseram trazer uma nova visão até de onde vêm a ancestralidade e o fundamento das nossas religiões. “E pensando num sentido mais amplo, tentamos mostrar uma outra experiência de vida das pessoas comuns, anônimas, que fizeram a nossa história”.

Apesar de toda a segregação da escravidão, foram várias as maneiras de convivência entre as pessoas, muito além daquela imagem que a gente tem de novela, de casarão com os brancos e senzala com os negros escravizados. E uma convivência também na solidariedade e na troca do dia a dia.

Financiado coletivamente com sucesso via Catarse, “Um Conto de Padilha” está disponível para compra na lojinha virtual dos Pontos Ilustrados. “Também devemos fazer outros eventos em São Paulo durante o ano, então só acompanhar nossas redes que sempre avisamos por lá”.

Ah, sim: se quiser ler o primeiro capítulo, basta clicar aqui.

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