Jornalismo de cultura pop com um jeitinho brasileiro.

Seria o Coisa um… Golem?

Um comentário a respeito do personagem da Marvel Comics me trouxe um interessante paralelo com um ícone do folclore judaico

Por GABRIELA FRANCO

Era uma sexta-feira, depois do pôr do sol. Portanto, era momento de Shabbat. Aí, eu postei a imagem abaixo, um desenho do perfil Ketubah Ring, que amei, com um golem muito fofo. Então, meu marido – que, caso vocês não saibam, é o Thiago Cardim, o outro editor aqui do Gibizilla – perguntou: “o Coisa [herói da Marvel Comics] é um Golem?”.

Eu NUNCA havia parado para pensar nisso, mas olha só. O Golem é uma das principais figuras do folclore judaico. É uma criatura feita de barro ou argila, trazida à vida por meios místicos (geralmente envolvendo palavras sagradas ou o uso do Shem HaMephorash) A versão mais famosa do mito é a do rabino Judah Loew ben Bezalel, de Praga, no século XVI.

Segundo a lenda, ele criou o Golem para proteger a comunidade judaica dos pogroms e falsas acusações, como os infames “libelos de sangue”. Nesse contexto, o Golem atua como uma espécie de defensor físico da comunidade — um protetor literal, criado para salvaguardar vidas em tempos de perseguição.

Portanto, se levarmos em consideração o aspecto de GUARDIÃO, faz sentido o Coisa (nosso Ben Grimm, do Quarteto Fantástico) ser lido como uma espécie de Golem moderno, especialmente quando se considera a herança judaica do personagem e dos próprios criadores.

Pois é, caso você não saiba, Ben Grimm, o Coisa, é nas HQs um judeu nova-iorquino do bairro Lower East Side, criado por Jack Kirby e Stan Lee — ambos judeus também.

Depois da viagem inaugural ao espaço com Reed, Sue e Johnny, Bem é transformado pelos raios cósmicos em uma criatura de pedra (ou algo muito semelhante), com força sobre-humana, resistência e aparência monstruosa. Mas, ao contrário de vilões ou bestas irracionais, ele é profundamente humano: leal, engraçado, protetor e, muitas vezes, um herói trágico, tipo Frankenstein.

Essa figura de alguém transformado em algo inumano para proteger os outros, muitas vezes sofrendo com sua própria existência, ecoa diretamente o arquétipo do Golem.

O Golem também era uma figura de barro — feita da terra, como é a aparência do Coisa — que não escolheu ser o que é, mas foi moldado para servir e proteger. Ambos carregam uma melancolia existencial, uma sensação de estar entre dois mundos: o humano e o monstruoso.

Se a gente pensar mais a fundo, o Coisa é também uma forma de reapropriação da narrativa judaica dentro de um contexto americano: um símbolo da resiliência judaica, reimaginado como super-herói. E, nesse processo, ele vira um Golem emocionalmente sofisticado — um guardião com alma.

Porém, o Golem também carrega simbolismos ambíguos. Em muitas histórias, ele acaba se tornando incontrolável ou perigoso, o que levanta discussões éticas sobre o poder da criação e os limites da intervenção humana nos domínios do divino.

E por hoje é só amiguinhos – aqui, a gente junta cultura pop e ciências da religião, apenas PORQUE SIM.

SHABBAT SHALOM. <3

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