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Stratovarius: os finlandeses mais brasileiros do mundo

Atração da edição 2025 do festival Monsters of Rock, o quinteto que se tornou ícone do metal melódico tem uma relação bastante íntima com o nosso país

Por THIAGO CARDIM

Na edição que celebra três décadas do festival Monsters of Rock aqui no Brasil, é claro e esperado que a maior parte dos holofotes estarão focados na apresentação dos co-headliners Scorpions e Judas Priest – além do tão aguardado retorno dos americanos do Savatage. Mas a banda que deve abrir os trabalhos na tarde do dia 19 de abril é não apenas uma velha conhecida dos brasileiros, mas também uma das bandas de power metal – ou metal espadinha, como queira – que têm uma das relações mais próximas com o público brasileiro. Estou falando, por óbvio, dos finlandeses do Stratovarius.

Eles passaram pelo Brasil pela primeira vez em 1997, no auge absoluto de sua forma e no papel de banda que ajudou a definir a sonoridade do power metal melódico lá nos anos 1990, quando o subgênero se tornou uma verdadeira febre. Trazendo a turnê do aclamado disco Visions pro nosso país, eles iniciaram esta relação de amor BR com um show na casa de shows paulistana Meridian, o antigo Teatro dos Vampiros. De lá para cá, já visitaram o nosso país algumas dezenas de vezes – a última sendo justamente na edição inaugural do Summer Breeze Brasil, hoje Bangers Open Air, em 2023.

Um tantinho de história

O Stratovarius surgiu em 1984, em Helsinque, Finlândia, inicialmente sob o nome Black Water – e com um line-up consistindo de Tuomo Lassila como vocalista e baterista, o guitarrista Staffan Stråhlman, o baixista John Vihervä e, mais tarde, o tecladista Antti Ikonen. A mudança de nome viria no verão daquele mesmo ano, refletindo a fusão entre os nomes Stratocaster (modelo de guitarra) e Stradivarius (famoso luthier de violinos), simbolizando a mistura de influências clássicas e elementos modernos no som da banda. Em 1985, Timo Tolkki chegaria pra substituir Stråhlman – e foi com esta formação que lançaram seu primeiro álbum, Fright Night, em 1989.

Com um som que evoluiu do heavy metal tradicional para um estilo mais sinfônico e virtuoso, a banda encontrou sua identidade e começou a trilhar seu caminho rumo ao sucesso internacional. De lá pra cá, lançaram dezesseis álbuns de estúdio – o mais recente, Survive, é de 2022 – seis DVDs e seis álbuns ao vivo.

Mas a formação da banda mudou MUITAS vezes – e hoje, eles estão na ativa sem nenhum membro fundador. O membro mais antigo é justamente o cantor Timo Kotipelto, que se juntou ao time em 1994, dez anos depois de sua formação.

Mas não importando quantos Timos estejam na banda, o Stratovarius se consolidou como um dos maiores nomes do power metal melódico, ao lado de bandas como Helloween e Gamma Ray. Com melodias marcantes, solos virtuosos e letras inspiradoras, a banda construiu um legado que atravessa gerações de fãs. Discos como o já mencionado Visions (1997), além de Destiny (1998) e Infinite (2000), são considerados verdadeiros clássicos do gênero, trazendo hinos como “Black Diamond”, “Hunting High and Low” e “Forever”.

A conexão especial com o Brasil O Stratovarius não apenas tem uma base fiel de fãs no Brasil, mas também reconhece essa conexão de maneira especial. “Sempre sinto que vocês gostam muito das nossas músicas. São sempre barulhentos, cantam as faixas de cabo a rabo”, disse, bem empolgado, o frontman platinado Kotipelto, quando o entrevistei pro JUDÃO.com.br, ainda em 2016. “Acho que nós fomos uma das primeiras bandas finlandesas de metal a começar a incluir o Brasil na lista de shows”.

Em 2002, quando entrevistei o baterista da época, o simpático Jorg Michael, às vésperas de outro show dos caras por aqui, ele me confessou que gostava tanto do Brasil que estava pensando em vir morar na nossa terrinha quando se aposentasse. E já tinha até destino certo: “Quero morar em Recife. Tocamos por lá e fiquei apaixonado pela força das percussões regionais de vocês”.

Os últimos anos têm sido de reestruturação completa para o quinteto que, depois da saída de Tolkki, perdeu seu líder intelectual e principal compositor. Ali, no começo dos anos 2000, a banda experimentou uma brutal queda de popularidade graças a uma sucessão de cagadas, com várias trocas de acusações dignas de qualquer TMZ do mundo metal, incluindo aí uma nova vocalista falsa toda coberta de sangue, a descoberta oficial de uma bipolaridade e até uma mijada (que muita gente diz ter sido verdadeira) em pleno palco. Tudo surreal. E, mesmo assim, a banda se reergueu.

Da formação clássica, sobraram apenas Kotipelto e o tecladista Jens Johansson – entrando então o guitarrista Matias Kupiainen, o baterista Rolf Pilve e o baixista Lauri Porra. Este último, aliás, se divertiu um bocado ao descobrir o significado de seu sobrenome por aqui e sempre entra na dança quando é saudado com real entusiasmo pelos fãs brasileiros no clássico momento de apresentação da banda.

Assim como eles também levam muito no bom humor o fato consumado de que a levada de teclado de sua “A Million Light Years Away” é claramente o “pa-pa-ra-pa-pa-ra-pa-pa-ra” do hit absoluto “Amigo de Fé”, do nosso cantor que ressurge das cinzas todo Natal, Roberto Carlos.

Escuta só. É sensacional. 😀

A conexão especial comigo 😉

Ó só, talvez os mais jovens não saibam, mas houve uma época em que não existia Spotify e nem qualquer outro serviço de streaming do gênero. O YouTube ainda meio que engatinhava. Por outro lado, os vinis já tinham tido sua morte decretada e os CDs custavam os olhos da cara (não que hoje sejam lá muito baratos). Ali, no comecinho dos anos 2000, quem reinava absoluto era mesmo um tal de MP3.

Eu era usuário ferrenho e declarado do Napster, do Soulseek, do Kazaa e demais sites de compartilhamentos de arquivos, através dos quais baixava meus MP3 de canções favoritas numa conexão desgraçadamente lenta. Graças à recomendação do primo da minha namorada da época – que se tornaria mais tarde minha primeira esposa e mãe do meu filho mais velho – conheci estes tais finlandeses do Stratovarius. E me meti a buscar músicas deles pra baixar por aí.

O arquivo digital demorou HORAS pra ser transferido pro meu computador. A música era “Father Time”, que depois se tornou uma das minhas canções favoritas do grupo. Aquele MP3, junto a uma dezena de outros, embalou muitas e muitas horas de trabalho quando comecei a fazer meus primeiros trabalhos em São Paulo, ainda um jovem estudante caiçara buscando um lugar ao sol. Lembrar desta canção me faz rememorar de tempos mais inocentes, de perrengues que deixaram saudades.

Dali em diante, quando o webdesigner cheio de espinhas na cara se tornou um jornalista especializado em entretenimento e cultura pop, vi o Stratovarius ao vivo quase que uma dezena de vezes – inclusive, eu estava lá no Olimpia, em São Paulo, naquele dia 27 de agosto de 2005, quando a banda gravou o seu hoje lendário primeiro DVD ao vivo oficial. Aquele que, no fim das contas, nunca foi lançado e se tornou praticamente uma lenda urbana metalística.

O que esperar deles no Monsters of Rock 2025?

Com uma formação atual que continua entregando apresentações poderosas, o Stratovarius deve trazer um setlist recheado de clássicos e músicas mais recentes, mantendo a energia e a qualidade de sempre. Os fãs podem esperar uma experiência inesquecível, com solos de guitarra alucinantes, vocais em altíssimos agudos e aquela atmosfera de pura heavy fofura que só um bom show de power metal pode proporcionar.

Se você ainda não comprou o seu ingresso pro Monsters of Rock, saiba que pode comprá-lo BEM AQUI. Não, isso não é uma publi (escrevi porque DE FATO adoro o Stratovarius), mas poderia ser. E faça o favor de dizer lá pro pessoal da Mercury Concerts que comprou a sua entrada pro festival só por causa da matéria que leu no Gibizilla. 😉