
Demolidor volta não como 4a temporada, mas algo totalmente novo
“Renascido”, que retoma o Homem Sem Medo a partir das três temporadas do Netflix, opta por uma personalidade própria apesar dos mesmos atores – e funciona muito bem, pelo menos até agora
Por THIAGO CARDIM
Quando a Marvel começou a dar sinais de que voltaria a fazer algo com o Demolidor, depois daquela passagem de três temporadas + um microuniverso integrado com os Defensores pelo Netflix, muita gente fez três rezas ao dia para que PELO MENOS o Charlie Cox (Matt Murdock) e o Vincent D’Onofrio (Wilson Fisk) fossem trazidos de volta. As aparições do Matt no terceiro filme do Homem-Aranha e na série da Mulher-Hulk, além do Rei do Crime nas séries do Gavião Arqueiro e da Echo, deixaram claro que o Zé do Boné (aka Kevin Feige) tinha escutado seus fãs.
Mas ele tinha outros planos. Ainda mais ambiciosos. No caso, dar uma nova chance ao Demolidor, agora dentro do MCU. E conforme Demolidor: Renascido foi ganhando forma como série, vimos que não apenas Cox e D’Onofrio retomariam os seus papéis, mas também Karen Page, Foggy Nelson, Frank Miller, o Mercenário… E mais: ainda nos disseram que as séries do Netflix, outrora sumariamente ignoradas como parte do tal universo conectado da Marvel, seriam consideradas como cronologia oficial, o tão almejado cânone, a partir de agora.
Como dizem os jovens: todos comemora, não é? Pois então: muita calma nesta hora. 😀
A Marvel tomou uma decisão das mais acertadas ao conectar Demolidor: Renascido com as temporadas anteriores, sem fingir que elas não existiram. Não tinha como ignorar. Assim como não dava, depois das recentes incursões de Matt e Fisk pelo MCU, pra fingir que eles não faziam parte de tudo aquilo. Mas, da mesma forma, foram bastante inteligentes ao dar para a série uma mais do que bem-vinda autonomia. Como sempre falamos por aqui, como sempre criticamos parte das produções da Marvel, como sempre pedimos para ser, as conexões tanto de um lado quanto do outro são sutis o suficiente para serem percebidas, mas não exageradas a ponto de se tornarem muletas narrativas.
Demolidor: Renascido faz sim parte do MCU – afinal, temos Fisk mencionando não apenas um homem com roupa de demônio e outro com uma camiseta de caveira, mas também “um sujeito vestido de aranha”. Mas a sua Nova York continua sendo muito mais urbana, focada nas pessoas pelas ruas, nos trabalhadores da construção civil, nas pessoas reunidas nos pequenos e aconchegantes bares locais.
E Demolidor: Renascido tem também os mesmos personagens da outra série do Demolidor. Mas está LONGE de ser meramente uma continuação. Digamos que está mais para um reinício. Não um remake ou reboot. Mas quase como o que acontece com um gibi quando um novo roteirista assume as rédeas depois de um arco bem-sucedido.

Sobre um outro tipo de renascimento
Uma outra coisa de suma importância repousa justamente no título: ESQUEÇA completamente qualquer esperança relativa ao nome original da série, “Born Again” – que é o nome em inglês da clássica (e excelente) saga “A Queda de Murdock”, conduzida por Frank Miller. A ideia aqui, apesar de girar obviamente em torno do tema do “renascimento”, que é aquele que vem se repetindo nestas histórias televisivas do Demolidor, acaba sendo completamente diferente.
A primeira temporada do Demolidor no Netflix, aquela diretamente conectada com o MCU, mostra o renascimento de uma Nova York encarando o impacto que a presença – e a destruição – dos heróis e vilões superpoderosos causou nas vidas das pessoas comuns, da periferia, dos bairros humildes e sem esperança.
Já a temporada 2, aí sim, tem um Demolidor mais super-herói do que aquele que a gente conhecia no anterior, renascido. Ainda que seja um super-herói diferente, que continua apanhando pra caralho, que sai cheio de hematomas e cicatrizes, um super-herói cheio de dúvidas e incertezas… mas um super-herói. Na terceira temporada, temos um Matt Murdock não apenas questionando a sua própria fé e o Deus no qual sempre acreditou, retornando à Igreja e ao orfanato onde foi criado, mas também questionando sua própria identidade. É um Matt Murdock que quer deixar Matt Murdock pra trás, que quer se assumir apenas como o Demônio.
Demolidor: Renascido é uma história diferente. Uma tragédia acontece e faz Matt repensar sua vida, sua carreira como advogado, seus amores… e sua própria personalidade de vigilante urbano. Agora é o Demolidor que fica pra trás, uma de suas máscaras abandonadas. Um ano depois, temos um Matt Murdock afastado da Cozinha do Inferno, trabalhando em um novo escritório de advocacia e lambendo suas feridas. Um ano depois, temos um Wilson Fisk recuperado do tiro no olho que levou de sua pupila e buscando uma nova direção em sua vida. Enquanto a astuta Vanessa, sua esposa, cuida dos negócios “escusos” de outrora, ele quer ser prefeito de Nova York.
Ambos buscaram construir novas personas. Mas descobriram (e revelaram ao público), em uma cena BRILHANTE um diante do outro numa mesa de restaurante, que os seus verdadeiros “eus” ainda pulsam e esperam ansiosamente pelo momento de um novo embate direto.
Se as temporadas anteriores de Demolidor no Netflix bebiam demais da fonte de Frank Miller, Demolidor: Renascido caminha por outras direções e mostra que é possível se inspirar em outras passagens dos gibis originais – aqui, em especial nas fases comandadas pelos roteiristas Brian Michael Bendis (que inclusive é consultor da série) e Charles Soule.

O tema principal acaba sendo, de fato, o vigilantismo. Aquele que será erradicado, tal qual nos gibis, por um Fisk tentando se entender como prefeito (e também se controlar, numa interpretação tensa e cheia de sutilezas de D’Onofrio, repare nas MÃOS do ator!). E aquele vigilantismo que, sem o humor escrachado da Mulher-Hulk, também vai parar nos tribunais de Matt Murdock, ao assumir o caso do Tigre Branco. Ainda que em outra instância e sob outro ponto de vista, os heróis estão nos holofotes de alguma forma.
Com um nível de violência muito acima não só das outras séries Marvel mas também até das próprias séries do Netflix, Demolidor: Renascido também tem aparentemente um mergulho incômodo na vida real – a começar por alguns policiais (vou evitar dar mais detalhes para não entregar spoilers) que carregam com honra o símbolo do Justiceiro, como uma espécie de licença pra matar. Falamos, inclusive, um bom tanto sobre isso neste artigo. O quanto isso vai ganhar destaque na história, ainda é um mistério.
Além disso, se você achava – equivocadamente, diga-se – que o General Ross, no papel de presidente dos EUA no recente filme do Capitão América, era uma alegoria pra falar do Trump, talvez fosse bom ver Fisk e, principalmente, seus eleitores. A plataforma de governo, as frases de efeito… e até O BONÉ, cara. Poisé, Wilson Fisk ganhou um MAGA para ganhar de seu. O mesmo Fisk que, nos gibis, chegou inclusive a ser chamado de MITO. 😉
Tudo leva a crer que, de alguma forma, esta série do Demolidor esteja pavimentando a construção de um pedaço realmente urbano do universo Marvel – no qual cabem o Homem Sem Medo, o Luke Cage, o Punho de Ferro, a Jessica Jones e ainda, talvez, quem sabe, um Cavaleiro da Lua, uma Gaviã Arqueira e, quem sabe até, um Homem-Aranha… ?
Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.
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Filme: Demolidor – O Homem Sem Medo
Série: Demolidor – 1a Temporada
Gibi: Demolidor – Fim dos Dias
Podcast: Os 60 anos do Demolidor
Texto: Como a Elektra mudou a minha vida
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