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Assassin’s Creed Shadows: Bendito, louvado seja!

O novo título da Ubisoft mostra que a franquia ainda continua no jogo

Por FLÁVIO LEE BUDOIA*, com colaboração de SILAS CHOSEN

Assassin’s Creed começou em 2007, com um assassino passeando pelos telhados de Jerusalém à procura de alvos. Naquela época, o conceito de “Jogo Mundo Aberto” ainda engatinhava, e tudo no mundo dos games era diferente. TREZE VERSÕES PRINCIPAIS DEPOIS, que nos levaram pra Itália da Renascença, pra Inglaterra (das invasões nórdicas e da revolução industrial!), pro Egito e pro Caribe, finalmente pousamos no tão pedido Japão Feudal.

E dá pra dizer com tranquilidade: o novo título da Ubisoft mostra que ela ainda continua no jogo.

Assassin’s Creed Shadows, em resumo, evocou as boas lembranças dos primeiros títulos da série, onde tudo parecia magnífico e deslumbrante, seja pela inovação na forma de jogar ou pelas belezas arquitetônicas que eu demorava para escalar, só para depois aproveitar a longa queda lá de cima.

Como fã da série desde o Altair, me foi devolvido algo que eu mal sabia que precisava: o prazer em jogabilidade stealth, como não sentia há tempos. Sabe aquele frio na barriga quando você SE TORNA UM NINJA? Coisas que só Tenchu havia proporcionado antes? 

Eu vim aqui contar como é jogar esse Shinobi Simulator 2025.

Mecânicas e gameplay

Primeiro, todos são bem-vindos. Qualquer tipo de jogador vai encontrar uma mecânica para chamar de sua.

O combate reformulado evoca um pouco da série Souls, como Elden Ring e Sekiro (é claro), da FromSoftware. Exige movimentos mais precisos e calculados ao invés de só apertar botões repetidamente sem pensar.

Sou acostumado a jogar nos modos mais difíceis por SER BRASILEIRO, então pude sentir o jogo demandando bastante da minha habilidade. Dois ou três golpes da maioria dos inimigos é o bastante para causar minha dessincronização, o famoso Game Over. 

Diferente de outros títulos da série (como o mediano e olhe lá antecessor, Assassin’s Creed Mirage), onde o combate é desinteressante, aqui você precisa de toda sua atenção e cuidado. O parry voltou a ser rei, e o tradicional uso dos elementos do cenário são ainda mais instigantes e subversivos. 

Por metade do jogo você controla a ninja Naoe. Uma mulher altamente treinada, cujos inimigos vêm em todos os tamanhos e formas. É legal ver uma moça pequena sobrepujando brutamontes usando sua agilidade? É claro. Mas o ninja não cai de cabeça no combate, porque o ninja não é burro. Há inúmeros fatores que te empurram sempre para a necessidade de agir e pensar como um guerreiro das sombras.

Naoe pode ser facilmente derrotada quando chama atenção e se vê cercada por muitos inimigos, logo, a forma mais esperta de se jogar é sempre usar e abusar de seus conhecimentos e cinto de utilidades ninja. Ganchos, bombas de fumaça, kunai, shurikens. Fora as escolhas entre katana, kusarigama e tantô. Mais do que o suficiente pra deixar qualquer Jiraiya ou Hanzo com inveja.

Mas a arma que traz uma novidade para a série é a sombra. Você pode de fato ficar invisível quando se posiciona direito, e isso faz toda a diferença. Já chega somente do bom e velho PROCURE A GRAMA ALTA, que todo mundo copiou de Assassin’s Creed.

A flexibilidade e capacidade de adaptação é um dos trunfos. Nem sempre só como ninja: tem vezes que só o rinocerotismo resolve, não é? 

O outro personagem principal é o Yasuke, um ex-escravizado levado ao Japão por missionários portugueses. Ele é uma pessoa imensa, e você faz uso desse tamanho e força transformando os inimigos em patê de atum com muito menos esforço que Naoe. Voltaremos a falar do Yasuke em breve.

Compasso Opcional: uma delícia!

Já tem um tempo que acessibilidade virou um papo importante no cenário de games. Isso levou designers a quebrarem a cabeça não só para incluir mais pessoas em seu hall de jogadores, mas também a pulverizar ainda mais a gama de opções a qual um jogador tem acesso, para que possa criar uma experiência mais “a sua cara”.

Shadows traz uma penca de opções interessantes, não só na dificuldade do jogo, mas em diferentes facetas de como você a encara. Por exemplo, sabe aqueles “marcadores no mapa”? “Siga a setinha até achar o objetivo da quest”. Aqui você pode desligá-los, e seguir sua aventura somente com as pistas que os NPCs lhe dão. A exploração e descoberta são causadas por minha própria curiosidade, o que me afoga na imersão. Como eu sempre quis.

Mas, não somos todos iguais, não é mesmo? E tá tudo bem. Para quem gosta de indicadores, a opção tá lá. Basta escolher nos menus.

A verdadeira novidade está no Modo Canônico: quando desligado, o jogador tem como escolher caminhos diferentes para os personagens, e não somente viver a história que os criadores escreveram. (É ciúme de Baldur’s Gate III? Não está mais aqui quem falou). 

Precisão histórica com pitadas de ficção

A série é famosa por entrelaçar história e ficção de uma maneira atrativa, provocante e divertida. Quem não se lembra da sensação de combater cavaleiros templários e os vilões da igreja católica, culminando com a luta épica contra sua santidade, o Papa, num dos primeiros jogo? Ou das incríveis aventuras de Ezio Auditore da Firenze e seu fiel escudeiro, Leonardo Da Vinci?

Assassin’s Creed se tornou um fenômeno (diria-se até transmidiático) muito por conta dessa maneira de viajar no tempo. Com castelos e templos reproduzidos com a atenção e o nível de detalhe que fizeram até surgir o rumor dos jogos serem usados na reconstrução de Notre Dame depois do incêndio de 2019, a série só evolui. E Shadows supera muitos antecessores no quesito precisão e detalhes. 

Só que é um pouco mais do que isso, com o jogo mostrando a atenção não somente a arquitetura mas também ao clima e ambiente, inclusive como elemento modificador do jogo e dos desafios.

As mudanças de estação ressaltam as belezas do Japão em suas diversas facetas, seja contemplando o céu azul e suas belíssimas montanhas durante o verão, as cores da primavera trazendo vida a todo o cenário, as pétalas voando durante o outono ou o branco da neve no inverno, fazendo os personagens se cobrirem, tremerem de frio e Naoe escorregar por lagos congelados.

Além disso, essa nova edição marca mais uma contribuição muito interessante dos jogos para o mundo fora da telinha: a equipe por trás de Assassins Creed Shadows restaurou digitalmente um kabuto, capacete usado por samurais, que foi o primeiro a viajar do Japão para o continente europeu. Ele foi dado como presente ao rei Filipe II da Espanha, em 1584. Ficou guardado na coleção real durante muito tempo, sendo parcialmente destruído num incêndio em 1884.

Assassin’s Creed Shadows trouxe o capacete e esse pedaço da história de volta à vida. A pesquisa feita para desenvolver o jogo ajudou a resgatar a forma original da peça de armadura. Ela foi então incluída como um item do codex do jogo (a seção que traz curiosidades históricas de tudo o que você encontra). E a equipe ainda criou uma réplica real do capacete em toda sua beleza original, devolvendo as formas e cores de antes do acidente, que foi então exibido ao lado do original num evento em parceria com o museu espanhol.

As nuances da história

Como um jogador lento, que gosta de viajar e se deliciar com os detalhes narrativos e realmente imergir no mundo do jogo, eu já alcancei 40 horas de Shadows, mas sem muito progresso na história.

O que já ficou marcado no pouco que vi foi a sensibilidade e a nuance por trás de todo o pano de fundo de Yasuke. Antes de estrelar seu próprio jogo de matar hominho, o montanha já inspirou mangá, virou série da Netflix, música do Emicida, quadrinho nacional e até enredo de escola de samba!

E caso você tenha estado fora da Terra nos últimos meses e tenha perdido o debate acalorado (ninguém aqui vai te julgar), aqui vai um resumo:

Yasuke foi o primeiro guerreiro estrangeiro a ser considerado um samurai. Existe certo debate sobre datas, termos e detalhes, como seu local de nascimento, afirmado principalmente como Sudão ou Moçambique, mas os fatos são bem claros: Yasuke era um homem preto, que chamava atenção por seu porte, cor e forma de agir numa sociedade onde a maioria das pessoas tinha a pele clara e estatura mais baixa, e onde sua postura dizia muito sobre você. 

Yasuke chamou a atenção de Oda Nobunaga, um dos maiores daimyo no Japão Feudal. E este o tornou seu subordinado, lhe dando moradia, salário, servos e o direito de portar uma espada. E assim fez-se o primeiro samurai africano, ex-escravo, que serviu ao lado de um dos mais importantes senhores da guerra do Japão até o fim, não mais como mercadoria a ser vendida, mas como um valioso e fiel guerreiro.

Isso já é o bastante para causar arrepios e instigar a curiosidade sobre essa história. O jogo começa contando essa saga justamente pelos olhos de Yasuke. E aqui a narrativa brilha, sendo ainda mais forte se você em algum momento já sentiu a sensação de ser “o estranho”, a pessoa deslocada ou indesejada em algum lugar. Pense em “ser brasileiro lá fora”, se você já teve a oportunidade, e você vai saber exatamente como é. Ver os olhos curiosos de toda a população voltados para você, suas reações e os diálogos iniciais me cativaram de uma forma muito além do esperado.

Receber tudo isso nos primeiros minutos de um jogo mostra que a Ubisoft mirou bem alto dessa vez, em vários aspectos. Conseguiu nadar de braçada contra a maré de ódio e vozes histéricas que aparecem na internet nesses tempos estranhos em que vivemos. 

Assassin’s Creed Shadows conta uma história que alguns, a galera que berra sobre “o que mais importa é a verdade”, diziam que não deveria ser relembrada. Mas os mais de dois milhões de jogadores nas primeiras 48 horas do lançamento lembram um lema que continua mais vivo do que nunca.

“Nada é verdade. Tudo é permitido”



* Flávio Lee Budoia é UX Designer na Ubisoft Finlândia



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