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Knocked Loose estreia no Brasil no palco do Bangers Open Air
Diretamente do Kentucky, o quinteto que começou no hardcore e mais tarde incorporou o death metal ao seu som foi indicado ao Grammy e se tornou responsável por uma apresentação histórica na TV americana
Por THIAGO CARDIM
“Gente, cadê as bandas de metal mais moderno? Por que estão focando só neste metal de tiozão?”. Este comentário (cheio de curtidas) é absolutamente real, publicado em um post a respeito do anúncio oficial da programação do Bangers Open Air, ex-Summer Breeze Brasil, e reflete a “indignação” de um fã mais jovem com a “falta” de bandas de metalcore, por exemplo, tal qual o Parkway Drive, headliner da edição inaugural em 2023.
Calma aí, meu simpático mancebo. Primeiro que este papo de “metal de tiozão” é uma bobagem sem tamanho, porque estamos falando de mais uma edição com diferentes tipos de metal, de gêneros diversos e diferentes gerações.
Mas depois, quando falamos de metalcore e demais subgêneros mais “modernos”, aparentemente o moço não prestou muita atenção na programação de domingo (4 de maio), que traz nomes como I Prevail, We Came as Romans… e a recente sensação americana que atende pelo nome de Knocked Loose.
Um tantinho de história
Um dos nomes mais intensos e barulhentos do cenário atual, conhecidos por sua abordagem visceral e crua mesmo dentro de um gênero já bastante extremo, o Knocked Loose foi formado em 2013 na cidade de Oldham County, Kentucky, originalmente sob o nome de Manipulator. Mas quando outra banda com o mesmo nome surgiu querendo trocar uma ideia, rapidamente elas acharam que faria sentido um “rebatismo”.
Depois de duas músicas de relativo sucesso no underground em 2013 e de um EP (Pop Culture) no ano seguinte, além de um split com o Damaged Goods em 2015 e uma batelada de shows em tudo que é buraco que conseguiam se enfiar, o álbum de estreia dos caras, Laugh Tracks (2016), trouxe um som pesado e caótico que conquistou fãs dentro e fora do hardcore.
Poisé, precisamos reforçar aqui que, originalmente, o grupo caminhava muito mais pro lado do punk, inclusive excursionando em diversas datas da icônica Vans Warped Tour.
Mas foi principalmente com A Different Shade of Blue (2019) que a banda solidificou sua posição na música pesada, adicionando influências do death metal e um instrumental mais agressivo. “Nosso som está ensanduichado entre hardcore e metalcore”, disse certa vez o vocalista Bryan Garris, reforçando que a intenção sempre foi produzir um som diverso e difícil de categorizar. Digamos que eles conseguiram… 😀
O EP A Tear in the Fabric of Life (2021) reforçou ainda mais o caráter cinematográfico e sombrio da banda, ampliando seu público e garantindo espaço em festivais importantes. As letras intensas frequentemente abordam temas de luto e desafio pessoal, complementadas por riffs de guitarra contundentes e vocais agressivos, alternando entre gritos guturais e melodias limpas.
Outra característica marcante do Knocked Loose, para além da fusão de solos virtuosos e batidas aceleradíssimas, está o chamado palm muting, técnica que visa silenciar parcialmente as cordas da guitarra, gerando uma sonoridade mais “abafada”, diminuindo a intensidade e ao mesmo tempo dando uma “encorpada” nos acordes.
Um temperinho de polêmica… ou quase isso
Ano passado, eles lançaram o excelente You Won’t Go Before You’re Supposed To, prova inconteste de sua maturidade sonora – que, além de conquistar o topo das paradas de rock e metal no Reino Unido e ser considerado um dos melhores lançamentos do ano por parte da mídia especializada, também está indicado AQUI, no próprio Gibizilla, dentro da lista de “discos de 2024 que você precisa ouvir”.
“É um disco incrivelmente sombrio, liricamente”, explica o guitarrista e principal compositor, Isaac Hale, numa entrevista pra Kerrang. “Mas dar a ele esse título parece uma justaposição legal e esperançosa. É representativo da música que sempre fizemos. Tudo o que estamos dizendo ou tocando é tão sombrio, assustador, às vezes totalmente aterrorizante, mas no final é uma saída positiva”.
Quando a própria Kerrang escolheu este disco como o melhor de 2024, deixou claro que é possível ouvir esta tensão fervente que permeia cada faixa, envoltas em uma escuridão sombria – e que, ainda assim, não é de forma alguma desanimadora. “Há uma catarse e uma alegria ousada nas profundezas abissais em que nos encontramos – não apenas na música e nas letras, mas pelo que este álbum significa e pelo que ele representa. É o produto de uma banda à margem, desafiadoramente fazendo as coisas do seu próprio jeito e nunca se curvando para sacrificar a integridade artística. Prova de que seguir seu próprio curso e permanecer fiel à sua mensagem e ter um amor desenfreado pelo peso importa mais do que o que quer que esteja na moda naquela semana. Não é apenas um disco, é uma declaração de intenções. Sem compromisso, sem misericórdia”.
O álbum traz participações especiais de nomes como Chris Motionless (na faixa Slaughterhouse 2), vocalista da renomada banda da cena musical extrema estadunidense Motionless In White (e que esteve recentemente no Brasil como parte do mini festival do Bring Me The Horizon) e também da cantora Poppy, atração recente do Knotfest Brasil 2024 e uma das grandes representantes da força feminina no metalcore. E é sobre a música da qual ela participa, Suffocate, que eu quero falar um pouquinho mais… 😉
Afinal, a canção marcou história ao ser indicada como “melhor performance de metal” no Grammy 2024. A nomeação surpreendeu muitos, já que bandas que flertam com o hardcore raramente aparecem no radar da premiação. Por mais que a vitória, justíssima aliás, tenha sido dos franceses do Gojira, o reconhecimento sinaliza uma maior aceitação do estilo nos círculos mainstream (ou quase isso), algo que poucas bandas deste gênero mais furioso conseguiram alcançar.
Porém, a exposição também veio acompanhada de um momento no mínimo curioso. No final de 2024, o Knocked Loose se apresentou no Jimmy Kimmel Live!, talk show americano de grande audiência, contando com a participação da Poppy justamente na execução de “Suffocate”. O desempenho da banda foi brutal e sem concessões, como de costume, pegando o público “comum” de surpresa e resultando em reações divididas – enquanto fãs de música pesada comemoraram, espectadores mais acostumados a performances convencionais expressaram choque com a agressividade do som.
A banda, no entanto, comemorou a chance de ampliar seus horizontes mesmo com as críticas. “Por muito tempo, nosso objetivo tem sido ver até onde poderíamos espremer essa banda em lugares onde não nos encaixamos e acho que este pode ser o maior. Televisão nacional”, escreveu Garris em postagem no Instagram. “Parece que o teto fica mais alto para TODOS, a cada dia. Celebramos isso juntos. Muito obrigado”.
Em 2023, o frontman já tinha dito algo semelhante, quando a banda foi surpreendentemente escalada para o festival indie Coachella. “Eu sinto que, obviamente, somos a banda mais pesada [no Coachella], e eu meio que amo ser a ovelha negra. Eu amo poder ser a banda assustadora. Nós nunca realmente tentamos evitar fazer coisas fora da nossa caixinha, e eu acho que isso nos dá uma oportunidade de crescer para públicos maiores”.
Todavia, no entanto, contudo, naquela mesma entrevista pra Kerrang, o guitarrista deixa claro que mudar o som e sacrificar o peso nunca foi uma opção. “Nós nunca tivemos essa conversa. Na verdade, conforme essa banda cresce, ela só fica mais desconfortável e extrema. Porque é para onde queremos ir. Queremos dar aos ouvintes algumas das coisas mais loucas que eles já ouviram. Claro, podemos adicionar ganchos ou refrões. Mas isso é apenas dar às pessoas algo para se agarrar. É a nossa versão — a versão insanamente pesada e assustadora — do que uma música de rock pode ser”.
Eu acho que eles tinham que aproveitar que vão colar no Brasil e tentar ver se rola uma aparição no Domingão do Huck. Ia ser PORRETA ver a cara da Dona Déa quando eles começassem a tocar. 😀
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Por falar nisso… BANGERS OPEN AIR!
O festival acontece, como já virou tradição, lá no Memorial da América Latina, em São Paulo – agora entre os dias 2 e 4 de maio. Você confere a programação completa no site oficial da festança metálica.
Os ingressos estão à venda no Clube do Ingresso.
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::: Leia tudo que a gente publicou sobre as primeiras edições do Summer Breeze
::: Complete aqui a sua coleção de heavy metal, meu camarada!