
Rinha de padre em um dos melhores filmes do Oscar 2025
“Conclave” é um suspense envolvente que revela os bastidores da política da Igreja Católica, com grandes atuações e um final surpreendente—vale cada minuto!
Por GABRIELA FRANCO
O thriller “Conclave” (nome dado à reunião secreta de cardeais para a escolha de um novo Papa, seja por falecimento ou renúncia do anterior) chegou discretamente aos cinemas brasileiros em 23 de janeiro, mas pode surpreender e levar mais prêmios do que muitos esperam na vindoura cerimônia do Oscar. E se não levar, será uma injustiça.
Dirigido por Edward Berger (de Nada de Novo no Front, 2022) e baseado no romance de Robert Harris, o filme aposta em uma produção enxuta, mas visualmente marcante, e prioriza um elenco de peso: Ralph Fiennes como o Cardeal Thomas Lawrence, Stanley Tucci como Cardeal Aldo Bellini, John Lithgow como Cardeal Joseph Tremblay e Isabella Rossellini como Irmã Agnes, uma figura discreta no início, mas que cresce em importância ao longo da trama.
A história se desenrola após a morte repentina do Papa, quando cardeais do mundo todo se reúnem com urgência no Vaticano para eleger seu sucessor. O protagonista, Cardeal Thomas Lawrence (Fiennes), se vê imerso em um ambiente claustrofóbico, isolado de qualquer contato externo enquanto intrigas, disputas de poder e revelações inesperadas surgem a cada nova votação.
E eis que o que deveria ser apenas uma atividade protocolar da Igreja, transforma-se em um jogo de manipulações, no qual pecados da carne, ambições políticas e segredos inconfessáveis vêm à tona.
O fascínio pelo “lore” da Igreja Católica
O universo da Igreja Católica nos cativa porque mescla tradição, mistério, poder e influência em uma narrativa que atravessa séculos. Com mais de 2.000 anos de história, a instituição sobreviveu a impérios, guerras e revoluções, mantendo rituais, hierarquias rígidas e, claro, aqueles seus muitos segredos bem guardados.
Não por acaso, Hollywood já explorou esse cenário diversas vezes, como em “Os Sinos de Santa Maria” (1945)—com Ingrid Bergman, mãe de Isabella Rossellini, interpretando uma freira—, “O Cardeal” (1963), “O Nome da Rosa” (1990) e “O Código Da Vinci” (2006), entre outros.
Além da fé e da liturgia, a política interna da Igreja adiciona um elemento de suspense comparável a um thriller político. A eleição de um Papa tem impacto direto nas relações internacionais, em políticas sociais e no cenário geopolítico, tornando cada conclave um evento globalmente relevante. O próprio processo de votação, retratado no filme, amplifica essa tensão: o mundo aguarda ansiosamente pela fumaça branca, enquanto alianças e traições ocorrem a portas fechadas na Capela Sistina.
Mas não é só o aspecto ritualístico que instiga a curiosidade. Os conflitos internos entre cardeais progressistas e conservadores, os embates sobre dogmas e reformas, além dos escândalos históricos, alimentam debates intensos. A crença de que o Vaticano esconde segredos e relíquias misteriosas inspirou teorias da conspiração e grandes obras de ficção, como o já citado O Código Da Vinci. “Conclave” mergulha nesse território, trazendo uma abordagem mais sóbria, porém igualmente instigante.

A crítica social dentro de Conclave
Entre os inúmeros escândalos já retratados sobre a Igreja Católica—vide Spotlight (2015), que expôs os abusos encobertos por décadas—, “Conclave aborda”, ainda que de forma sutil, um tema raramente explorado no cinema: o papel da mulher dentro da estrutura clerical.
A personagem Irmã Agnes, vivida por Isabella Rossellini, tem uma presença discreta ao longo do filme, mas seu papel se torna fundamental no desfecho. Sua fala final explode como uma bomba, evidenciando a estrutura patriarcal da Igreja, onde as mulheres são constantemente silenciadas e excluídas das decisões.
A escolha de dar voz a uma personagem feminina em um ambiente dominado por homens é uma crítica sutil, mas contundente, à desigualdade dentro da instituição. É um dos pontos mais fortes do filme e que merece atenção. Outras críticas, no entanto, virão à tona, mas contar qualquer detalhe a respeito delas é estragar a surpresa de uma trama calcada em interpretações absolutamente potentes.
A Igreja Católica continua a intrigar e dividir opiniões, mas sua influência é inegável. Ela desperta o interesse de religiosos, historiadores e curiosos justamente por mesclar fé, tradição e política em um universo tão rico quanto controverso.
E “Conclave” explora tudo isso com maestria.
O filme concorre nas seguintes categorias do Oscar 2025: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Diretor – Edward Berger, Melhor Ator – Ralph Fiennes e Melhor Atriz Coadjuvante – Isabella Rossellini, além de categorias técnicas como melhor trilha sonora original, melhor direção de arte, melhor figurino e melhor montagem.
